
Por mais ocupada que eu esteja, não consigo deixar de ler. No ponto do ônibus, a caminho do trabalho, na sala de espera do consultório, até mesmo me exercitando na academia do clube. Não consigo dormir se não ler pelo menos um pouco. Na falta de novidades, releio um ou vários dos livros antigos que tenho em casa (são mais de setecentos – meu filho teve a paciência de contar um por um - herdados de meus pais, comprados ou ganhados). Na segunda ou na terceira leitura, sem aquela ansiedade de saber o final, descubro coisas que passaram despercebidas na primeira vez.
A Imortalidade, de Milan Kundera, pode parecer a princípio um livro difícil. Mas à medida que avançamos na leitura, revela-se um quebra-cabeças que mistura passado e presente, ficção e realidade. A partir de alguns incidentes na vida de Goethe, traça um paralelo com uma situação que ocorre entre personagens fictícios na época em que foi escrito, no início da década de 1990. Aos poucos, as peças vão se encaixando, embora haja muitas interpretações possíveis que podem escapar aos leitores mais desatentos.
O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, conta a história de um rapaz que vê seu melhor amigo morrer na guerra e volta para casa transtornado. Embora tenha a oportunidade de se casar, trabalhar para uma empresa conceituada e ter sucesso de acordo com os padrões sociais, abandona tudo para buscar o sentido espiritual da vida e da morte. Claro que a ex-noiva, a família e os amigos não conseguem compreende-lo, mas eu me identifiquei com ele em várias passagens. Muitas vezes aqueles que são chamados de loucos são os que possuem a verdadeira lucidez.
100 Escovadas Antes de Ir Para a Cama, de Melissa Panarello, causou uma enorme polêmica quando foi publicado. Mas a vida sexual de uma adolescente italiana não é muito diferente do que acontece com as adolescentes brasileiras. Conheço várias garotas nessa idade – amigas de meus filhos, ou filhas de amigos – que me contam coisas de arrepiar que acontecem nas festinhas que frequentam. Só mesmo um observador mais atento consegue perceber que, assim como Melissa, no fundo elas estão procurando por amor, embora procurem da maneira errada. Melissa não se deixa conhecer. Quer tanto agradar aos homens que aceita fazer coisas das quais não gosta, passando uma impressão falsa de si mesma. Num dos poucos momentos de sinceridade, quando declara o seu amor ao professor de matemática com quem mantém relações sexuais, acontece o óbvio: ele desaparece.
Ocean Front, de Douglas Wallop, é um dos livros que herdei de minha mãe, e não sei se existe tradução para o português (já pesquisei em vários sites, e não consegui encontrar até agora). Mas vale a pena mencionar, porque é um dos melhores livros que já li, e isso porque eu leio MUITO. A história se passa na década de 1960 e gira em torno de uma jovem recém-casada que foi sequestrada e estuprada por um bandido, das consequências devastadoras que isso traz para sua vida e para as pessoas mais próximas. O marido entra em conflito porque acredita que deveria tê-la protegido, como se fosse possível reagir a um bandido armado e impedir que ele a levasse. O pai dela, um homem amargo e infeliz que esconde um terrível segredo, se revolta contra o genro – como é que ele foi permitir que isso acontecesse? E ela sente que o marido deixou de amá-la, porque ela se tornou “impura” aos olhos dele. Esse intenso drama psicológico convida a uma reflexão sobre os valores cristãos e sobre a verdadeira coragem.
Enfim, a leitura nos faz enxergar o mundo através dos olhos de outras pessoas. Ela nos transporta para lugares reais ou imaginários, nos faz viajar no tempo e no espaço sem sair do lugar. Existe prazer maior que esse?