(A foto ao lado sou eu com uns dois anos, no tempo em que minha mãe vivia torcendo para o meu cabelo crescer...)Quando meu pai trouxe minha madrasta para casa, tive um monte de sensações contraditórias. Minhas irmãs mais novas, que nem se lembravam mais de minha mãe, logo a aceitaram. Eu achava um desrespeito, uma completa falta de amor, meu pai querer substituir alguém que era insubstituível.
Hoje me lembro daquele tempo como um dos mais conturbados de minha vida. Mas, no fim das contas, o que é que uma criança de onze anos enxerga além de seu próprio lado da situação? Ela não era minha mãe, e eu não aceitava que mandasse em mim ou se intrometesse na minha vida.
Minha madrasta viveu com meu pai durante doze anos. Quando a última de minhas irmãs saiu de casa, ela saiu também. Perdi o contato com ela – como poderia ser amiga de alguém que abandonara meu pai velho e doente, no momento em que ele mais precisava? Embora eu já fosse mãe de dois filhos, a criança de onze anos ainda estava dentro de mim e falava mais alto.
Meu pai era alcoólatra. Não me lembro se ele já bebia quando eu era pequena ou se tornou-se assim depois da morte de minha mãe. Mas éramos todos extremamente infelizes. Minha madrasta principalmente, tendo que conviver o tempo todo com as comparações que ele fazia. Minha mãe era culta, falava vários idiomas e dominava qualquer assunto da atualidade. Minha madrasta frequentara a escola apenas o suficiente para ler e escrever – no ambiente em que crescera, uma mulher tinha mais é que aprender a ser dona de casa e agradar o marido. Minha mãe tinha um metro e setenta e cinco de altura e havia sido modelo na década de 1960. Minha madrasta mal chegava a um metro e meio de altura e tingia os cabelos de loiro. Mas meu pai se esquecia de comentar suas qualidades. Enquanto minha mãe era uma negação como dona de casa, minha madrasta conservava tudo impecavelmente limpo. E nos ensinou a sermos organizadas, a respeitar os mais velhos e a não confiar demais em todas as pessoas.
Somente no velório de meu pai é que consegui compreendê-la totalmente. As lágrimas que ela chorou não deixaram dúvidas. Eu não era mais uma criança. Uma mulher de trinta anos consegue imaginar o que é amar tanto assim um homem incapaz de corresponder a esse amor. Durante doze anos ela suportou coisas que nenhuma mulher deveria suportar – eu mesma já desisti de relacionamentos por bem menos. E fez isso para nos proteger, para que nós pudéssemos crescer em segurança.
Essa compreensão foi o que finalmente nos aproximou. Hoje estamos sempre juntas, e o contato faz bem a nós duas. Eu tenho sido para ela um amparo na idade madura, e ela para mim um porto seguro nas horas difíceis, inclusive em relação aos meus filhos. Sabemos que podemos contar uma com a outra – e com essa certeza, não existe solidão possível.
Se nosso propósito junto à família é aprender a perdoar e amar, nós conseguimos. Descobrimos que não importa se existe o parentesco corporal, e sim a qualidade do relacionamento que nós escolhemos construir. Todos fazemos parte da grande família humana.
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